segunda-feira, 18 de março de 2013

A tarifa chega ao fim da linha

18/03/2013 - Gazeta do Povo

Em outubro de 2011, o arquiteto e urbanista Lubomir Ficinski pediu demissão do cargo de diretor de Transportes da Urbs. Em carta ao então prefeito, ele expôs a principal razão para a atitude que tomou: considerava inconcebível que a tarifa do transporte coletivo metropolitano integrado ficasse abaixo do custo real. Na sua opinião, era uma decisão prejudicial à saúde do sistema, porque a tarifa irreal, deficitária, acabaria por exigir o aporte de subsídios para manter o equilíbrio do sistema.

O tom profético da carta se realizou logo depois, quando o prefeito Luciano Ducci – já candidato à reeleição – se viu obrigado a buscar ajuda do governador do estado para cobrir o prejuízo de R$ 64 milhões provocado pela tarifa de R$ 2,60. Naquela época, o custo por passageiro se aproximava dos R$ 2,80.

Resumo da ópera cantada por Lubomir Ficinski, arquiteto que tem no currículo larga participação no desenvolvimento do transporte coletivo de Curitiba e região metropolitana: a decisão de Fruet de segurar a tarifa em R$ 2,85 pode ser politicamente justificada, mas só serve para aprofundar a incapacidade de o transporte coletivo se autossustentar: a tarifa técnica é, hoje, de R$ 3,12. "Esses 27 centavos de diferença representam um prejuízo mensal de R$ 6,75 milhões para manter a rede integrada em funcionamento", destaca Ficinski. "A menos que o prefeito pense apenas em Curitiba, e queira comprometer a continuidade da integração metropolitana", completa.
Lubomir também lamenta que o prefeito Gustavo Fruet insista na construção do mesmo projeto de metrô que herdou de Ducci. Além do custo exorbitante (que ele calcula em R$ 1 bilhão a mais do que os R$ 2,3 bilhões previstos), o novo modal não terá maior eficiência do que a que poderia ser alcançada com melhorias mais baratas na rota dos expressos que fazem o mesmo percurso.

Na última terça-feira, assim que foi divulgada a nova tarifa do transporte coletivo, o arquiteto concedeu a seguinte entrevista à Gazeta do Povo.

A Urbs acaba de anunciar a nova tarifa do transporte coletivo de Curitiba, de R$ 2,85. O senhor considera razoável, justo ou insuficiente este aumento?

Antes de mais nada, esse aumento de tarifa é produto de quê? É fruto de um embate político-eleitoral entre o prefeito e o governador. O prefeito fez o seu lance. O próximo é do governador. O racional, neste momento, olhando o futuro do sistema, seria o estabelecimento de uma tarifa que se aproximasse da tarifa técnica de R$ 3,05, prevista antes do aumento salarial dos motoristas e cobradores. No futuro, mesmo com um eventual subsídio, vai ser quase impossível buscar o equilíbrio entre a tarifa técnica e a real.

A diferença do custo da integração não é um problema que deve ser resolvido pelos outros prefeitos da região metropolitana?

Esta é uma visão limitada. A capital é o coração da região metropolitana e interage com seus vizinhos no dia a dia. É preciso que o prefeito de Curitiba pense no todo e não apenas na parte.

Não cabe nenhum papel aos demais prefeitos?

Claro que sim. Mas os prefeitos não pensam em dividir o ônus do aumento de tarifa com Curitiba. Na realidade, não custaria muito se considerarmos o número de prefeituras lindeiras. Os prefeitos exigem integração, mas se recusam a pagar pelo menos por parte dela. (Com o fim do subsídio do governo estadual, existe a possibilidade de a rede integrada ser rompida a partir de 7 de maio)

O senhor defende que a tarifa teria de subir de uma só vez para no mínimo R$ 3. Mas isso geraria um grande impacto para os usuários.

Desde 1966, proporcionalmente ao salário mínimo, uma tarifa de R$ 3 seria a menor de todo esse período de mais de 40 anos. Hoje, considerando 50 passagens por mês, o trabalhador de salário mínimo gastaria 22% do que ganha, o menor índice em todos estes anos. E veja mais um detalhe: são relativamente poucos os trabalhadores com carteira assinada que tiram o transporte do próprio bolso, pois a grande maioria usa vale transporte pago pelas empresas, pelos patrões.

O senhor tem defendido o VLT como uma solução alternativa para o metrô e o transporte coletivo.

Defendo para Curitiba outra solução para o transporte de massa, moderna, limpa, muito mais barata e mais útil para o total da população curitibana, o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). Na minha visão, uma linha circular de 38 quilômetros, interligando os bairros mais populosos e os grandes terminais de integração com a região metropolitana faria muito mais sentido do que ter uma linha de metrô de 15 quilômetros para servir apenas a uma parte da Região Sul da cidade.

Pelo que se sabe, o VLT seguiria o mesmo trajeto que hoje fazem os ônibus da linha Interbairros II. Não seria mais apropriado melhorar essa linha de ônibus em vez de investir no VLT?

São coisas diferentes. Em primeiro lugar, o VLT oferece mais velocidade, mais capacidade e maior conforto e é, sem dúvida, um veículo urbano. Ele pode reter todo o transporte metropolitano e redirecionar seus passageiros para o sistema local, aliviando o Centro de Curitiba.

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